Caderno Terapêutico Amarelo

Tuesday, March 28, 2006

Dissertação Paranóica

Estou aqui neste lugar,
Que de pacífico nada tem,
Mas gosto desta sensação
De solidão na multidão.
A minha noção de paz e sossego
Está de facto adulterada.
Desde quando é uma esplanada,
De centro comercial,
Pacífica e apaziguadora de espíritos?
Não importa,
Para mim é.
Gosto de observar as pessoas,
Todas elas.
Fixar algumas,
Escutar as suas conversas,
Imiscuír-me nos seus mundos.
O sol vai torrar-me a cabeça,
Mas a luz favorece o meu tom de cabelo
(Sou de facto egocêntrica e narcisista) .

(...)

Porque insisto em algo
Que não desejo?
Pelo ego.
(Deixei o café arrefecer,
este tempo de escrita, está intragável!!!)
Começo a pensar se,
Esta "verborreia escrita"
Não será um sintoma
De uma futura esquizofrenia paranóica...

Monday, March 27, 2006

" The great difficulty was that,
thougt they were sublime,
the couple were really not serious."

Henry James


Luz Posted by Picasa

Uma história para contar devagarinho ... IV

Não me recordo de mais nada,
Desse dia,
Há oito ou nove anos?
Lembro-me de chegares,
Com ela,
E ouvi-la dizer:
Este é o ...
Não me lembro de fixar o teu nome,
Nem sequer de escutá-lo
(porque ouvir é diferente de escutar)
Dessa noite só recordo
O "ódio à primeira vista"
O desconforto que senti,
Quando reparei que olhavas para mim,
Como se eu fosse uma visão,
Que percorrias o meu corpo,
Com esses olhos,
Que por muito que tenha negligenciado,
Criticado, atacado,
Nesse dia, há oito ou nove anos?
Me causaram aquela angústia e mau estar,
Que não passou do prelúdio do que viria,
Era provavelmente a aura,
Essa sensação, que algumas pessoas dizem,
Sentir, perante a eminência de um acontecimento.
Porque não recordo mais nada?
Desse dia,
Esse que alterou tanta coisa em nós?

Saturday, March 18, 2006

A expressão dos afectos

" (...) acredito que cada um de nós existe apenas para ser utilizado pelas solidões alheias, e o que na altura me pareceu o início de uma paixão pode não ter passado de um breve instante em que duas solidões difusamente sentidas se cruzaram, para logo se perderem. "

António Mega Ferreira, 2001, " A Dança", In A Expressão dos Afectos

Monday, March 13, 2006

Uma história para contar devagarinho ... III


Onde est�s? Posted by Picasa

Consigo agora avaliar serenamente a dimensão do estrago que causei na vida dele, e ele na minha.
Abrir caixas de Pandora não soluciona problemas, cria novos, de dimensão superior. Desconheço o móbil que dirigiu o meu comportamento, naquele dia. Qual deles teve mais peso? A atração física, a sede de vingança, a teimosia, ou simplesmente ... o amor.
Passados estes meses começo a dar-lhe razão:
" Assim fico viciado em ti ", " És a ... da minha bida".
Sim, deveria ter-lhe dado ouvidos. Não é correcto alimentar uma fera para depois a deixar perecer. Nada é pior que a ausência.
Sim... a ausência. Não a distância física ou geográfica. A ausência é pior. A ausência impede-nos não só de ver, de tocar, de falar, mas, mais importante, impede-nos de saber do outro.
Haverá algo mais insuportável do que desconhecer se o ser que amamos está vivo ou morto?
Haverá algo mais temível que morrer e ter a certeza de que ele não saberá da nossa morte, de que não lhe será dada a oportunidade de a chorar?
Por isso nada é pior que a ausência. Impede-nos de planear, de sonhar, de imaginar possíveis encontros. Somos confrontados com a brutal certeza de que não adianta remar, não há amor que valha ou baste.
Podemos fugir, tentar ficar próximos, mas como, onde, de quê? Se não há nada que indique o caminho? Para onde ir, para estar perto de ti? Quando este sítio , que é tão longe de ti, é o único que nos une.

Aprender

Depois de algum tempo aprendes a diferença, a súbtil diferença, entre dar a mão e acorrentar uma alma.
Aprendes que amar não significa apoiar-se, e que companhia nem sempre significa segurança.
E começas a aprender que beijos não são contractos, presentes não são promessas.
E não importa o quão boa seja uma pessoa, ela vai ferir-te de vez em quando e precisas perdoá-la por isso.
Aprendes que falar pode aliviar dores emocionais.
Descobres que se leva anos a construir confiança e apenas segundos para destruí-la e que podes fazer coisas num instante, das quais te arrependerás para o resto da vida.
Aprendes que verdadeiras amizades continuam a crescer mesmo a longas distâncias.
E o que importa não é o que tu tens na vida, mas quem tens na vida.
Descobres que as pessoas com quem mais te importas na vida, são tiradas de ti muito depressa; por isso, sempre devemos deixar as pessoas que amamos com palavras amorosas; pode ser a última vez que as vemos.
Aprendes que a paciência requer muita práctica.
Aprendes que quando estás com raiva tens o direito a estar com raiva, mas isso não dá o direito de seres cruel.
Aprendes que nem sempre é suficiente ser perdoado por alguém. Algumas vezes tens de aprender a perdoar-te a ti mesmo.
Aprendes que com a mesma severidade com que julgas, tu serás, em algum momento, condenado.
Aprendes que não importa em quantos pedaços o teu coração foi partido, o mundo não pára para que o consertes.
E, finalmente, aprendes que o tempo, não é algo que volta para trás.
Portanto, planta o teu jardim e decora a tua alma, ao invés de esperares que alguém te traga flores. E percebes que realmente podes suportar ... que realmente és forte, e que podes ir muito mais longe depois de pensar que não se pode mais. E que realmente a vida tem valor, e que tu tens valor diante da vida. E só nos faz perder o bem que poderíamos conquistar ... o medo de tentar.

William Shakespeare

Monday, March 06, 2006

A Distância


27 de Fevereiro Posted by Picasa

Realizados e perdidos,
Assim estão hoje os meus sonhos.
Não há elo que nos ligue,
Só recordações;
Vivo delas.

São tantas,
São tão poucas;
São vastas, imensas;
São curtas, mínimas.

Vivo daqueles instantes,
Em que te tinha tão perto,
À distância de um olhar,
E tão inalcançável.

Agora estás tão longe,
Num lugar onde nunca chegarei;
Mas tão presente,
Tão palpável.

Estás em mim,
Na minha pele,
Nas minhas entranhas,
Na minha boca,
No meu cheiro.

Porque entraste em mim,
Porque tocaste no meu colo,
E eu senti,
Novamente.